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V - MINHA VIDA
Minha primeira escola

  Em fevereiro de 1949, por não haver vaga na rede pública estadual, papai matriculou-me aos oito anos de idade, na Escola Mista Municipal da Vila Margarida. Era uma escolinha de emergência, improvisada pela Prefeitura, para abrigar alunos excedentes que não conseguiram vagas nas escolas do Estado. A construção da escola era antiga e de madeira, estava localizada na rua Parahiba, entre as Vilas Margarida, Barra Funda e Christoni, bem próxima ao carvoeiro da Fepasa. Era uma escola paupérrima, dotada de poucos recursos, possuía apenas uma sala de aula, onde se acomodavam aproximadamente 40 crianças de famílias de baixa renda.
  Somente para fins de registro: A primeira professora de que se tem notícia em Ourinhos, foi a Dona Lybia Arantes Roma, professora particular, que no ano de 1914 entrou com um pedido para ser nomeada professora da Escola Mista de Ourinhos, criada pela Assembléia Legislativa de Salto Grande em, 23 de dezembro de 1910, quando Ourinhos era distrito de Salto Grande.

Minha primeira professora

  Dona Sebastiana Corrêa Sanches, nasceu em São José do Rio Preto, no dia Do03.03.1918. Era viúva de Manoel Sanches Hernandes. O casal teve apenas uma filha: Eunice Corrêa Sanches Belloti. Eunice casou-se com Ruy André de Arruda Belloti e tem dois filhos: André Henrique e Laís Maria. Atualmente, Eunice é professora graduada com mestrado e leciona psicologia nas Faculdades Integradas de Ourinhos (FIO) e na FATEC.
  A professora era dona de um sorriso encantador. Tinha traços finos; seus cabelos eram pretos e curtos. Vestia-se muito bem e, quando passava por nós, sentíamos um discreto perfume de lavanda. Executava seu trabalho com seriedade e bom humor. Era uma professora inteligente, culta e muito capaz; lecionava com amor e abnegação. Lembro-me de que todos gostavam dela; suas aulas eram sempre interessantes, pelo fato de ser talentosa e amar seu trabalho de educadora. Com sua calma, sabedoria e conhecimento, ela iniciou-me no universo das letras e alfabetizou-me.
  Aquela senhora inteligente conseguiu, com sua doçura e delicadeza, alfabetizar mais de oitenta crianças iguais a mim. Na escolinha que funcionou por apenas dois anos no local, seus alunos eram, em grande maioria, filhos de trabalhadores rurais, ferroviários e operários, residentes na periferia, de classe média baixa, dotados de pouca cultura, socialmente desfavorecidos, cujos filhos trabalhavam depois das aulas para ajudar no sustento de suas famílias.
  Na manhã do dia 02.03.1949, munido de um caderno, lápis e um embornal de pano contendo uma penca de bananas e metade de um pão feito em casa, de aproximadamente meio quilo, saí rumo à escolinha, onde eu faria meu primeiro contato com meus colegas e minha professora.

Meu primeiro dia de aula

  Foi dramático meu primeiro dia de aula. Eu estava muito contente, iria aprender a ler e escrever e para escola fui de peito cheio e feliz da vida. Na escola, ao toque de um sininho, nossa professora mandou-nos entrar em fila dupla. Primeiro as meninas, depois os meninos. Entramos na sala de aula e nos acomodamos. Aí, então, ela se apresentou e deu início à chamada.
A pedido da professora, à medida que éramos chamados, devíamos ficar em pé e nos identificarmos, dizendo o nome do nosso pai, sua profissão e onde residiamos. Naquela hora reinava silêncio, todos nós estávamos atentos. A professora foi chamando um a um e identificando-os. Quando ela chamou Eitor, ninguém respondeu. Depois de aguardar um pouco ela perguntou: "Alguém reside perto do Eitor?" Não houve resposta. Ela reformulou a pergunta: "Alguém conhece o Eitor ou seus pais?" Ninguém respondeu.
Quando ela concluiu a chamada, perguntou em voz alta: "Algum aluno deixou de ser chamado?" Reafirmou a pergunta: "Faltou alguém?" A despeito de minha timidez, embora fosse um menino irreverente, e ao mesmo tempo atrevido, eu levantei a mão. Ela pediu para que eu me levantasse, dissesse o nome de meu pai e sua profissão. Eu me levantei e em seguida respondi: "Meu nome é Olavo, meu pai chama-se Antônio Martins; papai tem uma fábrica de manilhas na vila Perino." Ela consultou o livro de chamada e respondeu: "Esse nome não consta do livro de chamada". Tornou a perguntar, já respondendo... "Quem fez sua matrícula na escola foi sua mãe?" Respondi, "Não... foi meu pai." Reperguntou ela novamente: "Seu pai trabalha lá." Não trabalha, ele é o dono." respondi. Fez-se um silêncio enquanto a professora pensava... Até este momento o garoto era o Olavo, ele sabe disso, todos sabem.
  Sem que ninguém possa imaginar, surge a partir deste instante um novo personagem, Eitor entra na história
. Em tom de brincadeira, a professora pergunta: "Por acaso não seria você o Eitor?" Os alunos riram, mas eu fiquei quieto. Finalizando ela disse me encarando: "Faltou o Eitor e o nome do Olavo não consta da lista de chamada." Então ela fechou o livro a seguir, mandou-me sentar, assistir à aula, dizendo que resolveria o problema depois, no final da aula. No início da aula, eu estava gostando da professora só que a partir desse fato, meu sentimento foi mudando, estava ficando preocupado, passei a ficar na defensiva com meus pensamentos e imaginava: "Onde essa mulher foi achar esse nome "Eitor". Não, não é verdade, não pode estar acontecendo isso, justamente comigo. "Como ela pode querer mudar o nome de alguém. Pensei comigo... Não gostei da professora; não estava gostando do que estava acontecendo (ledo engano).
  Fiquei preocupado a aula inteira; meu pensamento voava. "Será que meu pai não fez minha matrícula? Será que estou na escola errada? Quem seria o Eitor? Todos meus amigos e vizinhos estavam na lista de chamada, por que meu nome não constava na lista? Será que meu pai se esqueceu. Todos sabem que eu sou o Olavo, porque então a professora brincou com meu nome? Assim, foram todos os minutos da aula. Será? Será? Por quê? O que será que aconteceu? Não consegui me concentrar. Que sufoco!!!. Finalmente, acabou a aula. Pensei; agora eu sumo daqui; saio em disparada; ninguém me pega. Só pensei...
  Terminada a aula, todos os alunos foram dispensados, menos eu. A professora pediu para eu esperar. Após uma longa conversa por telefone com meu pai a professora dispensou-me dizendo: você já pode ir embora. Eu conversei com seu pai e está tudo esclarecido, "Você esta matriculado, pode vir à escola amanhã, na hora da chamada, quando eu chamar o nome Eitor, quero que você responda presente, pois este é o seu nome verdadeiro. Não me disse mais nada, nem tampouco deu qualquer explicação, simplesmente me dispensou. Saí da escola com a cabeça cheia de "minhocas"
  Eu não entendi nada e não estava gostando do que estava acontecendo. Muito assustado, fui para casa; meus pensamentos voavam. Na minha santa inocência não tinha condições de avaliar o que estava se passando; jamais poderia imaginar outro nome que não fosse o meu. Eu sou o Olavo, todo mundo sabe disso, por que será que está acontecendo isto comigo. O que será que meu pai disse para a professora. Ela sabe que meu nome é Olavo e por que será que ela falou Eitor. Pelo caminho, meio atordoado, perguntava a mim mesmo, minha nossa ! O que será que está havendo. Por que ela me chamou de Eitor se meu nome é Olavo? Todos meus colegas me conhecem. Eu sou Olavo. Que diacho é isso de Eitor. Tá maluca ! E pensei comigo: realmente a professora deve ser maluca mesmo. Vou falar para mamãe que para essa escola eu não volto mais; não gostei do que aconteceu; não gostei da professora trocar meu nome. Como vou encarar meus colegas amanhã? Fiquei pensando: será que eu tenho um irmão que não conheço e que se chama Eitor, ou seriameu irmão Cleber o Eitor. Pelo caminho fui ruminando tudo isso.

Uma história muito maluca

  Tinha certeza que minha mãe poria um ponto final nesta história maluca. Quando me aproximei de casa mamãe já estava no portão à minha espera. Eu lhe disse: "Mamãe, para aquela escola eu não volto mais." Surpresa, ela me perguntou de uma só vez: "Por quê? Você não gostou da escola? Aconteceu alguma coisa? Você brigou com alguém"? Eu respondi: "Calma, mamãe, não é nada disso. A minha professora é louca." Atônita, mamãe perguntou: "Por quê"? "A senhora não pode imaginar o que aconteceu".
  Minha mãe arregalou os olhos, pela minha cara de assustado e apreensiva respondeu: Fala logo vamos! O que aconteceu? "Na hora da chamada a professora quer que eu responda presente, quando ela chamar o Eitor. Minha professora é mesmo biruta, mamãe, para aquela escola eu não volto nunca mais. Os meus colegas riram de mim na escola por causa dela e eu passei o maior carão. Pra lá eu não volto mais."
  Ainda nem tinha terminado de contar tudo o que se passou na escola, e mamãe ficou pálida, achei que ela iria desmaiar, precisou até se sentar, depois de alguns minutos se recuperou e lívida, disse explodindo: "Desgraçado! Hoje você me paga! Seu pai não poderia ter feito isso comigo. Aquele miserável me paga! Não dá pra acreditar... seu pai não fez isso... Não, não... Não é possível... Eu mato aquele desgraçado." Mamãe repetiu várias vezes essas palavras e saiu esbravejando em direção à olaria do papai. Eu pensei comigo: Mamãe também pirou! Será que todo mundo está ficando louco? O que será que está acontecendo? Minha mãe saiu correndo, não me disse nada... por que será que ela xingou meu pai ? O que será meu pai fez que deixou mamãe tão irritada e tão brava. Nunca vi mamãe falar aquelas palavras; mamãe sempre foi muito recatada. Jamais falou mal de papai e nunca nos permitiu falar mal dele, ela dizia sempre, não façam isso; nem em pensamento. O que será que está havendo para mamãe agir desta maneira, isso nunca aconteceu. Será que Mamãe pirou, ficou maluca também.?"
  Fiquei perplexo, sem entender nada. Mamãe sumiu por mais de uma hora, e eu fiquei atônito e sozinho em casa. Nunca vi mamãe tão brava assim. Estava preocupado, com mamãe, sem saber o que estava acontecendo; sem saber o que fazer. O que será que está acontecendo?, eu me perguntava incessantemente.
  Eis a explicação para o que de fato aconteceu: Quando nasci, mamãe queria que eu me chamasse Olavo e papai, Eitor. Os dois discutiram muito, mas não entravam em acordo; nenhum dos dois cedia. Esse impasse levou dias. Papai somente para agradar mamãe que estava se recuperando, prometeu para ela que faria o registro no cartório com o nome de Olavo, disse, mas ele não cumpriu o combinado e registrou-me com o nome de Eitor. Quando voltou para casa, disse para mamãe que estava tudo certo e havia me registrado como Olavo, nome que me acompanhou por toda a vida, até aquele instante fatídico para mim. Somente tomei conhecimento do nome verdadeiro no meu primeiro dia de aula. Ninguém podia imaginar o acontecido. Meu pai nunca me chamou de Eitor, tampouco de Olavo.

Continua Cap. IV ...

Eitor Martins

 

 
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